Imagine um daqueles dias ferrados, em que você só quer resolver todos os seus problemas e sumir no mundo. As preocupações tomam conta de seus pensamentos e você briga consigo mesmo em um turbilhão de “e se…” que lhe fazem repensar suas escolhas e chegar à única conclusão de que você fez tudo errado. Afinal, quem é você senão mais uma pobre alma tendo que sobreviver a esta vida injusta? Não tem casa certa, nem tem uma boa relação familiar, nem uma vida amorosa estável e ainda deve muita grana para gente da pesada.
A única conclusão que você chega é de que é apenas mais um na multidão. Desinteressante. Pouco importante. Irrelevante. Destinado a viver uma vida sem significado e morrer e ser esquecido.
Então, do nada, você dá de cara com uma intrigante imagem de si mesmo. Mas não esse seu “eu” perdedor e sim, uma versão de você melhorada, com boas roupas, um penteado respeitável, um ar de inteligente e de alguém bem sucedido na vida. É você sendo tudo aquilo que você não conseguiu ser.
A primeira reação é de espanto; de achar que está vendo coisas. Mas parece tão real, que é irresistível não chegar mais perto. E você caminha, curioso, enfeitiçado na direção daquele seu reflexo vivo. Até que, essa versão perfeita de você mesmo se joga na frente de um trem. É… este outro “você”, que parecia ter tudo na vida, simplesmente desiste dela.
Esse ó ponto de partida da irresistível série canadense que conquistou legiões de fãs em todo o Mundo – Orphan Black.
Sarah Maning, uma jovem inglesa órfã, com uma vida desajustada e a vontade de consertar as coisas e poder voltar a viver ao lado da filha e do irmão é o fio condutor dessa trama, em que a inspirada atuação da brilhante e premiada atriz Tatiana Maslany é de tirar o fôlego.
Se não bastasse ser impensável ver alguém igual a você na rua se suicidar, imagine o que seria descobrir que muitas outras versões suas estão espalhadas por aí, seguindo o curso de suas vidas tão distintas, como se fossem realidades paralelas.
Não há como ver o piloto sem querer ver mais. É criativo, intrigante, eficiente na apresentação da trama e personagens e faz você querer desvendá-la.
Tatiana interpreta cerca de 10 personagens incrivelmente únicos, a tal ponto de fazer você esquecer que é a mesma atriz que dá vida a todos. Nas cenas em que as cópias interagem quase não dá para notar que existe uma bela dose de chroma-key para tornar isso possível.
E assim, somos apresentados a uma série de tipos, cujos destinos se cruzarão em uma trama envolvente e minuciosamente articulada. Entre elas, uma divertida e neurótica dona de casa (Alex), uma cientista neo-hippie e lésbica (Cosima), uma alemã punk (Nadja), uma policial regrada e séria (Beth), uma inescrupulosa empresária (Rachel), uma transexual masculinizada (Tony) e a mais impressionante de todas, uma garota ucraniana muito doida (Helena), apelidada nas redes sociais de Crazy Shakira (realmente Tatiana fica a cara da cantora colombiana em uma das melhores caracterizações da série).
Mas o maior engano é achar que a vida de Beth era assim tão certinha. A policial está em plena investigação pela corregedoria da policia por excessos em uma abordagem, que mais para frente revelará outros nós nesta teia que é o universo de Orphan Black.
Só este insight já daria uma série bem interessante, mas à medida que Sarah mergulha na vida de Beth e ficam claras as evidencias de que ela já sabia das cópias e, até se comunicava com elas, instiga o expectador a querer saber mais e mais da série. E, garanto, o roteiro corresponde a todas essas expectativas à altura.
A série que estreou em 2013 e tem duas temporadas completas com 10 episódios cada é necessária para todo bom apreciador de séries. O mais legal é que ainda parece ter muita lenha para queimar.
Orphan Black é exibida no Brasil pelo canal pago BBC HD.
Trailer: